Leonardo Calado
23 min readDec 20, 2024

Uma Ficção Pseudocientífica.

Diferente do costume, não trago um conto nem uma resenha ou reflexão, mas os três primeiros capítulos do livro que estava escrevendo. Espero que gostem.

SINOPSE:

Em um futuro distante, Jorge Calegari, um funcionário do Cartório Internacional Bob Huskey, descobre uma conspiração envolvendo um conflito entre o então presidente da América do Norte e uma revolucionária, sendo obrigado a sair de sua zona de conforto e explorar um mundo mais caricato e bizarro do que ele pensava.

Capítulo 1: Residencial Ray Charles

A PORTA DO ELEVADOR DO Complexo Residencial 004 — Ray Charles abriu às 20:35 do Horário Internacional do Sudeste. Jorge Calegari entrou e apertou o botão ilustrado pelo número cinco, andar onde ficavam os apartamentos de números entre 50 e 59. Uma média de 10 apartamentos por andar, divididos pelas paredes dos corredores do Complexo Residencial.

Uma idosa surgiu correndo para o elevador. Jorge segurou a porta para ela.

— Boa noite — disse a mulher. — Desculpe por isso, foi um dia e tanto. — Ela apertou o botão com o número 9 ilustrado.

— Boa noite — disse Jorge. Ele reparou o crachá acima do peito da velha em seu vestido florido.

Brega, pensou.

O nome dela era Chloe Guerra e trabalhava para a agência de Correios Estadual.

— Não tem problema — ele completou.

Ele notou seus cabelos grisalhos de dar pena. Certamente não havia passado pelos procedimentos estéticos semestrais para manutenção de equipe padrão a todos os funcionários públicos. Ultrajante. Ele virou para a frente da porta e passou a ignorá-la com desdém. O elevador cabia cerca de quinze pessoas, um verdadeiro terror. As paredes eram pintadas com tintas obtidas através de plantas, com figuras floridas saídas diretamente da moda dos anos 1950 do Século XX da Primeira Geração. Uma moda que retornava a cada milênio, mais ou menos na mesma época que teria acontecido na Geração anterior. O auge do momento eram as caríssimas roupas Recharge, réplicas perfeitas do século XX da Primeira Geração, mas poderiam ter sido as Reboot, Retake — que eram modas de milênios anteriores — ou qualquer outra palavra que pudesse trazer um significado de refazer. Uma nostalgia sem fim e desprezo por outros tempos. E assim durava até alguém considerar antiquado e replicar outra velharia da Primeira Geração, provavelmente faixas e pôsteres dos Beatles nas ruas juntos a homenagens a outras bandas dos anos 1960. Podia ser pior, pensou Jorge, podiam continuar com o Elvis.

Jorge trabalhava no Cartório Internacional Bob Huskey, gerenciado diretamente pelas nações que formavam a North Oceanic Alliance, NOA (Aliança Oceânica do Norte), que surgiu após o aumento do nível do mar e separação dos Estados Unidos em quatro outros países: América do Norte, América Central, América Latina e América do Sul. A divisão verdadeira do continente teve de ser renomeada após este incidente.

Ele trabalhava quatro horas diárias. Talvez cinco ou seis ou o dobro disso. Tudo dependia do movimento, que geralmente era grande o bastante para não passar as oito horas concretas no tédio e calor do Trópico Sudeste. Estava voltando para casa animado por conta das pílulas de humor orgânicas que havia tomado poucas horas antes para manter a produtividade e ânimo. Mal via a hora para reencontrar Carolina na manhã seguinte, o que também o preocupava porque já tinha insônia, então mal conseguiria dormir suas quatro horas rotineiras. Era o grande mal do amor.

O elevador parou no quinto andar e Jorge saiu, abandonando a velha. Graças a Deus, ele pensou. Ele não aguentava mais o cheiro de amônia saído das fraldas geriátricas da idosa. Um verdadeiro vexame companhias tão respeitadas contratar pessoas nestas condições. Elas não saberiam manter a produtividade desejada, mijando em suas calças tipo cigarrette apenas de pensar na possibilidade de demissão. Em uma época esteticamente nostálgica e sem uniformes desnecessários, sujar as próprias roupas de moda era tão ruim quanto perder um ônibus.

Jorge abriu a porta do apartamento 52 com sua chave e entrou já deixando seu chapéu fedora e seu paletó no mancebo ao lado da porta. Seu lar tinha por volta de 8 metros de comprimento por 4 metros de largura; cozinha e sala juntas no mesmo cômodo, um quarto de casal com entrada pela lateral esquerda ao norte da sala e um banheiro pequeno que dava para a sala e ao próprio quarto.

As paredes do apartamento eram pintadas de bege com desenhos e molduras holográficas de cineastas da Primeira Geração. Cada lar no Residencial Ray Charles buscava assemelhar-se ao tempo e arte favoritos de cada morador, detectando suas sinapses e vontades a partir de uma bola de ferro chamada Retrô-Condutor, que também servia como fonte de luz, posicionada no teto de cada local. Quando mais de uma pessoa entrava em um apartamento do Complexo, os enfeites eram alterados automaticamente e os hologramas mesclavam épocas e artes diferentes. Não se limitava às moradias, no entanto; em restaurantes, por exemplo, os Retro-Condutores modificavam o ambiente por completo a fim de agradar toda a clientela.

Jorge caiu na poltrona verde colchoada no centro da sala, tirou os sapatos e ligou a televisão de 50’’ presa em sua parede. Ao apertar o botão, ela foi trazida para frente por hastes mecânicas inteligentes. Logo em seguida, pegou seu Dispositivo Sistemático Tangencial (DST) do bolso e passou a digitar os números primos 2–7–5–3, desbloqueando o aparelho a fim de visitar a vasta Rede Tangencial enquanto o televisor transmitia o canal de filmes.

— As vidas se perdem como fogo na água. — Disse a personagem do filme que era transmitido na televisão: uma mulher de cabelos morenos e postura confiante.

Adoro esse, pensou Jorge ainda olhando o DST. Ele então apertou o botão 3D do controle. As imagens saltaram da tela instantaneamente, o cenário do filme cobrindo todo o apartamento. Luzes néon do filme holográfico refletiam na janela quadrada, focos vazando para as ruas do Complexo Residencial 004 — Ray Charles; três milênios antes, nos anos 1980 da Segunda Geração, conhecido como Condomínio Residencial Pat Benatar. Jorge se levantou da poltrona e fechou as cortinas para não perturbar a vizinhança. Ele aproveitou para pegar um lanche na cozinha.

O filme continuou rodando:

— Uma criatura como aquela não é humana. Seu cérebro é um placebo para sua dor de um mundo de ilusões. O verdadeiro entendimento se baseia em não aceitar o que se entende — o personagem holográfico se sentou na poltrona de Jorge, mesclando com o ambiente para maior imersão. — Entenda isso, Rose, por favor.

Jorge voltou. Que filme bom, ele pensou. Mas ficaria melhor com mais uma coisa.

— Ative o filtro Technicolor, 1958 — disse Jorge.

Subitamente, os hologramas de um filme azulado, deprimido e futurista foram alterados para versões mais coloridas e vivas de si mesmos. A roupa maltrapilha do personagem Roger Smith foi transformada em um terno cinza e ele ganhara um chapéu. O longa é modificado visualmente para assemelhar-se a um Noir dos anos 1950 da Primeira Geração como os famosos filmes de Alfred Hitchcock, principalmente admirados agora nos anos 1950 da Terceira Geração. Jorge se aproximou do personagem e olhou para a mulher holográfica Rose Parker.

— Eu entendo, Roger. — Disse Rose, de costas, olhando para a saída. Começou a caminhar até ela.

Rose Parker estava em um visual teddy boy. Camisa branca, sobretudo quadriculado e calças pretas. Ela era um detetive, comum em filmes do século XX da Terceira Geração. Era interpretada pela atriz Claire Winston, nascida nos novos países da Europa, os Novos Europeus, que surgiram após a queda do Reino Unido. Seu sotaque era forte e o levava para todos os personagens que interpretava, sendo sua marca registrada. Sua vestimenta e aparência lembrava Jorge de Carolina.

Roger Smith, o interesse romântico e homme fatale da obra transmitida, era interpretado por Robert Moore, veterano na sétima arte e indicado pelo menos seis vezes ao Prime Award de Melhor Ator, principal premiação do cinema. Jorge já havia assistido o filme em questão, Destino da Morte, centenas de vezes. Estava quase na hora da traição.

— Aonde você vai? — Perguntou Roger Smith. Rose estava prestes a sair.

— Encontrar Hector — disse Jorge Calegari junto a Rose.

Roger Smith sacou uma arma.

— O que está fazendo? — Questionou Rose Parker, irritada.

— O Hector é propriedade do governo, querida — Roger Smith se aproximou da mulher e trancou a porta pela qual ela iria sair, apontando a arma para o coração de Rose. — Sabe quanto pagam por uma apreensão dessas? Eu preciso dessa recompensa.

— Os arquivos… você transferiu as propriedades da Vera Lohan para o nome do Hector. Se você o prender…

— O FBI terá de prestar contas aos cidadãos de bem envolvidos na apreensão, então parte de toda a fortuna irá para mim. Meus parceiros já estão com o velho. Venha — ele levou Rose para a poltrona verde colchoada de Jorge Calegari e a fez sentar, a arma apontada ao seu peito.

Capítulo 2: Ó, Doce Amor

NA MANHÃ DE SÁBADO, 6:43 do Horário Internacional do Sudeste, Jorge Calegari revirava em sua cama de casal devido ao calor e o sol batendo em sua janela. Geralmente, em noites mais frias ele e Carolina se aninhavam e faziam amor. Ele sonhava com seu retorno diariamente desde seu intercâmbio para um país da Aliança Oceânica do Norte, e hoje ela finalmente voltaria. Lembrando disso, saltou animado do colchão e foi direto ao banheiro a fim de tirar o suor, deixando suas roupas bagunçadas no meio do quarto. Por um momento, Jorge Calegari não se importava com a última noite de insônia, ansiando apenas pela chegada de sua namorada ao aeroporto. Na pia do banheiro havia um pote de girassóis, as flores favoritas de Carolina. Jorge Calegari deixara tudo pronto para a chegada de sua amada. Moravam juntos há pelo menos 2 anos.

Jorge se barbeou, escovou os dentes, tomou uma boa ducha gelada e foi vestir-se no quarto. Abriu as gavetas do móvel à direita da cama, ao lado da porta do banheiro, e puxou uma camisa social padrão, uma gravata preta listrada e depois uma calça. Pegou as roupas sujas e jogou no cesto de roupa. Catou o relógio de pulso ao lado do criado-mudo e foi à sala. Calçou o sapato que estava frente à poltrona e saiu do apartamento.

Desceu as escadas porque era mais rápido e sem vizinhos chatos. Pulou degraus por ansiedade e pressa e, em questão de segundos, saiu do Complexo Residencial 004 — Ray Charles. Correu para o seu carro personalizado como uma Buick Super Riviera, 1951 da cor azul, pois adorava a transição dos anos 1940 para os anos 1950. Entrou no carro e deu a partida. A rua estava vazia ainda àquela hora da manhã, porém a Cafeteria 70s’ Nostalgia já estava aberta em frente ao Residencial, com alguns moradores locais pegando cappuccinos em copos adesivados com pôsteres de filmes dos anos 1970 da Primeira Geração.

Ligou a rádio na 187.fm, a estação para fãs da música popular. Estava tocando Jailhouse Rock, de Elvis Presley. Jorge mudou rapidamente para a 188.fm, a estação para fãs de músicas não tão populares assim. Marcha Turca de Beethoven.

Virou à esquerda na Avenida Marlon Brando a fim de chegar ao aeroporto mais rapidamente, a música tocando em volume máximo dentro do carro. Esperava que a Avenida estivesse vazia durante aquela hora da manhã; geralmente as pessoas voltavam de viagens às noites de domingo.

Apenas 4 carros, contando comigo. Tudo isso?, pensou, bem, vou chegar com tempo de sobra no aeroporto. Ainda são 7:25.

* * *

CHEGOU AO AEROPORTO ÀS 10:27, com cerca de duas horas de atraso. Os carros pareciam ter se reproduzido geometricamente. Não era perceptível na hora, mas, pouco a frente deles, oito carros vieram da Rua Robert Moore e outros dezesseis apareceram na intersecção da Avenida Marlon Brando com a Avenida Marilyn Monroe. E, então, mais e mais veículos.

Não seria tão problemático se um acidente não tivesse ocorrido a frente na pista. Uma viagem de poucos minutos havia se transformado em um verdadeiro inferno.

Jorge Calegari viu Carolina sentada em um banco próximo à entrada do Aeroporto Internacional do Atlântico. Ela passava o polegar por cima da tela de seu DST, provavelmente vendo as últimas notícias do NOA, ele pensou. Uma confusão no Monte Rushmore causou quinze mortos, incluindo o presidente da América do Sul, Leonard Strudel. As outras pessoas no local, ao redor de Carolina, estavam apressadas demais para qualquer atenção extra por parte do rapaz.

— Oi, moça — disse Jorge Calegari cumprimentando Carolina. Ela estava com uma réplica de uma bolsa Dior cáqui estilo anos 1950 produzida em massa pela Recharge, alça passando pelo braço esquerdo.

Ela olhou para ele.

— Sabe quantas horas eu fiquei parada aqui?

— Foi mal, um caracol entrou no meio da avenida.

Ela se levantou e o abraçou, rindo.

Andaram de mãos dadas conversando sobre o cotidiano até o personalizado azul de Jorge no estacionamento do aeroporto.

— Primeiro as damas — disse Carolina, abrindo a porta para Jorge.

— Depois da senhora…

Ela o empurrou para dentro do assento de passageiro com sua bolsa cáqui, dando muita risada. Senhor!, pensou Jorge Calegari, essa mulher ainda me mata! Ele então passou as chaves do carro personalizado e o tíquete de estacionamento e ela deu a partida. Saíram dali pouco mais de 10:35.

— Quer almoçar onde? — perguntou Jorge.

— Amor, eu que tô com o carro, quem devia perguntar isso era eu pra você.

— Essa é boa. — Ele disse enquanto observava Carolina fazer o retorno pela Avenida Marilyn Monroe, àquela hora com carros espalhados por todo o asfalto, sejam personalizados Deluxe, com fidelidade assustadora, porém mais caros, ou modelos mais simples e baratos como o Buick de Jorge Calegari. Não feios, longe disso, entretanto facilmente identificáveis como réplicas personalizadas devido suas pinturas foscas e um pouco mais apagadas.

Jorge notou o Chevrolet 210, 1955 em frente. Uma réplica perfeita. Certamente um Deluxe.

— Um dia vamos ter um, Carol. — Disse Jorge.

— Um Chevrolet 210?

— Não, um Deluxe, pô.

— Sinceramente, eu não me importo muito.

A resposta atingiu a mente de Jorge de uma forma inexplicável. Como assim ela não se importa?, pensou. Um personalizado Deluxe é o advento deste milênio, uma forma de arte popular para o povo.

— Quer sushi? — Perguntou Carolina.

Jorge fez que sim com a cabeça. Ela então virou à esquerda, na intersecção da Avenida Marilyn Monroe com a Rua Andy Warhol.

* * *

CAROLINA MOORE ERA UMA MULHER presa em sua própria mente que usava livros como forma de distração. Era irmã do renomado ator Robert Moore e buscava, constantemente, desvencilhar-se de sua sombra. Não ousava nem ao menos dizer seu sobrenome em público por ansiedade, ainda que existissem cerca de 14 milhões de Moores vivendo no Trópico Sudeste.

Durante a Grande Imigração da Terceira Geração, após a queda do Reino Unido, 4 milhões chegaram ao país, e isto foi aumentando cada vez mais com o passar dos anos, e não era exclusivo dos Moores.

Carolina Moore era Tropisudestina, isto é, nascida no Trópico Sudeste, oriunda do Estado de Dourado, na pequena cidade de Salpicantes, Norte do país, cerca de 800 quilômetros de onde morava atualmente, no Estado de São Gregório, na grande cidade de Desajeito.

Tinha 23 anos, sendo três anos mais nova que Jorge. Era neta de uma imigrante britânica que havia se casado com um imigrante russo depois do suposto descarte de armas atômicas da Rússia feito em prol de uma dita paz mundial. Mesmo que diversos países do Oriente Médio, Ásia e dos Novos Europeus permanecessem em guerra, isto não era da conta deles.

Carolina estava sentada de pernas cruzadas, esticada na cama do apartamento 52 do Complexo Residencial 004 — Ray Charles. Os hologramas agora misturavam o cinema, adorado por Jorge Calegari, com literatura contemporânea da Primeira Geração, arte bem apreciada por ela, na decoração do local.

Ela relia um livro que comprara durante seu intercâmbio para a América Central, onde eram localizados os Estados da Califórnia, Oregon, Washington, Nevada, entre outros do Oeste e centro do continente Neoamericano. Na capa: Roulade Chambers, por Cleyton Lee; “Câmaras de Rocambole” em tradução livre.

— Livro de culinária? — questionou Jorge Calegari entrando no quarto.

— Ficção científica. Eles colocam essas pessoas em câmaras em formato de rocambole e as enviam pra momentos diferentes do tempo.

Ele perguntou de quando era. Século XXI da Primeira Geração.

— Então eles viajam no tempo?

— Isso. E os momentos são variados. Possibilidades prováveis ou improváveis. Basta alguém mexer os pauzinhos do jeito errado e tudo vai pro beleléu. — Ela voltou algumas páginas. — Aqui, leia.

Jorge Calegari se sentou aos pés de Carolina e leu. O autor tinha uma imaginação e tanto:

Eu vi o Sol nascer e se pôr em todas as direções rapidamente. O medidor teria registrado a velocidade se ainda estivesse comigo. Estimei a rotação do planeta a cerca de 50 mil quilômetros por hora, como um fast forward real; e o que eu pensava ser apenas uma aceleração do tempo provou-se incorreto quando notei que vários destes “Sóis” vinham do Norte e se punham ao Sul. Nordeste a Sudoeste, Sudeste a Noroeste…

Vi uma fagulha de luz ao horizonte, provavelmente de uma fogueira. Ela acendia e apagava sem parar. A vegetação ao meu redor nascia, morria e renascia, porém, meu corpo permanecia inalterado. Nem um fio de cabelo a mais ou a menos. É uma ilusão, eu pensei. Uma ilusão daquela maldita câmara na qual me enfiaram.

Parece interessante, pensou, mas…

— Não entendi muito bem — disse Jorge.

— A prosa pode ser um pouco confusa mesmo. Mais alguém do seu trabalho gosta de ficção científica?

Só veio à mente uma pessoa.

— Tem um cara, Ricardo Calado. Ele trabalha na sala ao lado da minha faz algumas semanas. Tive que passar lá pra entregar uns documentos — disse.

— Ele leu este?

— Deve ter lido. Ele passa mais tempo lendo do que trabalhando — ele riu. Ela não achou graça. — Provavelmente deve tá lendo agora também…

Carolina não respondeu.

— Vou perguntar pra ele na segunda. — Jorge completou. Ele passou por cima de Carolina e deitou-se ao lado dela, na parte esquerda da cama. — Que calor do inferno — ele disse logo após deitar-se. — Quanto graus diz no DST?

— 23.

— Só?

— Você precisa de um ar-condicionado, cara. Esse apartamento é muito abafado.

— A janela tá aberta?

— Sim, senhor.

Jorge olhou para a parede branca atrás da cama e viu a janela circular, atrás da cortina florida, aberta. Ele voltou para Carolina, indignado.

— Amanhã? — Ele perguntou.

— Amanhã.

Eles foram dormir separados e descobertos. Ainda temos outro dia de sossego para aproveitar, pensou Carolina.

Capítulo 3: Outra Segunda-Feira

ERAM 11:15. O CARTÓRIO INTERNACIONAL Bob Huskey era um edifício de dois andares sustentado por suas grandes paredes de concreto sob uma luz holográfica de drones-projetor camuflados a fim de parecer uma catedral gótica. A porta de vidro da entrada dava para um grande lobby de espera com três fileiras de cadeiras espaçadas em 3 metros, 4 cadeiras por coluna, 8 cadeiras por fileiras. No sentido oeste e leste, mais três fileiras espaçadas em 3 metros, com 4 cadeiras em cada.

Os cidadãos retiravam suas senhas ao lado da porta de entrada em uma máquina automática que registrava suas identidades ao pressioná-la com sua digital. Sentavam-se e esperavam até que um televisor inteligente os chamasse pela senha e nome completo, o que poderia levar até cinco horas por conta do movimento costumeiro. Os televisores mediam 20 polegadas e eram equipados com caixas de som que reproduziam a voz de qualquer pessoa que estivesse configurada no sistema do Cartório Internacional, geralmente alguma celebridade para acalmar os ânimos dos impacientes. Muitas vezes escolhiam a voz artificial e poderosa de Robert Moore para as chamadas.

Quando alguém era chamado, o televisor e as caixas de som marcavam o local da sala-guichê em que deveria comparecer, podendo ser no primeiro ou segundo andar do edifício. Para isso, o lobby tinha uma porta translúcida que dava para um corredor dividido por portas de aço espalhadas ao longo dele; as salas eram isoladas acusticamente para “maior atenção” ao cidadão atendido. Ao final do corredor havia um elevador e uma escada à direita para o segundo andar. O tempo de espera de cada sala-guichê era de até dois minutos; caso o cidadão não comparecesse na sala neste meio tempo, a lista do televisor inteligente pulava para o próximo da fila.

Jorge Calegari trabalhava na sala-guichê 9B, ao fim do corredor do segundo andar. Era vizinho de trabalho de Ricardo Calado, da 8B. Normalmente se encontravam no refeitório localizado no subsolo — que era possível acessar apenas em uma sala-guichê qualquer a partir de um elevador de vidro em formato de tubo — no horário de almoço ou quando precisavam repassar documentos um ao outro. Naquela segunda-feira movimentada, ele carimbava um pedido de troca de nome de um jovem imigrante chamado Hot Christ Azevedo. O calor de 45 graus do sol do verão era tolerável devido ao ar-condicionado de sua sala, porém um grande bafo quente atingia quem de lá saísse, causando extremo desconforto, principalmente a quem já esperava há mais de quatro horas e sentia o alívio do ar-condicionado da sala. O mais comum, entretanto, era um funcionário sentir o peso do fogo invisível durante a saída para o almoço ou do expediente por conta do grandioso choque térmico.

Jorge carimbou o último documento, já exausto.

— Tudo certo agora, Bruno Azevedo — disse. Apertou o botão à sua direita na mesa, ao lado de um frasco de pílulas orgânicas, liberando a sala para o próximo da lista.

O homem saiu. Jorge abriu o frasco e tomou uma das pílulas com a intenção de melhorar seu humor.

O próximo atendido foi um imigrante krataniense precisando tirar seu título de eleitor do Trópico Sudeste; homem alto, cerca de quarenta e cinco anos, com um short praiano e camiseta sem mangas. Que fora de época, pensou Jorge Calegari, indignado.

A Kratânia, ou Cratânia, era um dos países que surgiram após a queda do Reino Unido. Uma guerra havia se instaurado entre os kratanienses e os telonienses, da Telônia, após a recusa de um pedido de exportação de réplicas do Álbum Branco por parte do governo krataniense.

Carimbou.

Abriu o frasco e tomou outra pílula orgânica. Apertou o botão ao lado. Próximo.

* * *

14:33. HORÁRIO DE ALMOÇO.

— Concordo — disse Jorge Calegari, tentando fingir que prestava atenção ou se importava a respeito do que Ricardo Calado falava.

Ricardo era um homem parrudo, intimidador, porém sorridente e versátil em seu trabalho. Eficiente, sem dúvidas, mas seu colega do 9B o ignorava devido ao seu estilo despojado: loiro tingido, com mullet; camiseta preta e jaqueta baseadas no clipe Thriller, calças largas de fazenda e chinelos laranjas.

— Foi então que a Missão Sopro na Garrafa começou — disse Ricardo.

Jorge, não aguentando mais, checou seu DST para verificar as horas.

Ainda faltavam 4 horas para o fim do expediente e a tela do Dispositivo também indicava que estava começando a chover forte.

Que porra, ele pensou.

* * *

15:45. CAROLINA MOORE HAVIA SAÍDO para fazer compras e realizar uma entrevista de emprego na Zona Sul de Desajeito; contabilidade. Estava no Laranja Orgânica, um hortifruti próximo ao prédio que realizara a entrevista. Faltavam pouco menos de 5 horas até o retorno de Jorge Calegari do serviço.

O hortifruti tinha um grande letreiro personalizado fazendo referência ao livro de Anthony Burgess e o filme de Stanley Kubrick, ambos do século XX da Primeira Geração. As luzes eram todas apagadas, mas focos em laranja apareciam dos caixas e davam uma boa iluminação para o ambiente. Caixas Inteligentes, Carolina pensou. A música-ambiente era reprodução da trilha-sonora do longa-metragem. Toda essa combinação dava um charme setentista bem diferente para os corredores do mercado.

Ainda que estivesse fora de época — tendo em vista que o mundo em geral estava buscando resgatar o espírito dos anos 1950 da Primeira Geração — , quebras de estética e moda eram permitidas, principalmente quanto a clássicos mundiais. Muitos países resgatavam modas oitentistas ou, ainda, anteriores aos anos 1950.

Merda, pensou Carolina, sem laranja. Bem, um pacote de ameixas sintéticas, um pacote de bananas-nanicas azuis; bom para o estímulo sexual, justificou a si mesma, Jorge anda precisando. Um pacote de uvas arco-íris e…

— Próxima! — O Caixa Inteligente virou-se à Carolina. Sua luz laranja iluminando o rosto e cabelos castanhos da mulher, a fez perder a linha de raciocínio e cerrar os olhos.

Havia um desenho no vidro refletivo, baseado em Malcolm McDowell, tentando simular um rosto humano e homenagear o filme. Um forte contorno preto o destacava da intensa luz laranja emitida pelo refletor redondo.

O Caixa passou todas as compras e um frasco de pílulas orgânicas

— São 5 Trâmites, minha drugui — disse o Caixa Inteligente. Ela retirou uma carteira triangular rosa do bolso, ainda com os olhos quase fechados, e entregou uma nota plastificada lilás com um desenho de Leonard Strudel, o ex-presidente da América do Sul: TRA$ 5,00. A máquina botou as compras numa sacola ecológica.

Carolina saiu correndo do mercado com a sacola em mãos. Abriu os olhos na beira da calçada, pedestres passando apressados em suas roupas chiques estilo anos 1950. Alguns olhavam a mulher em confusão, ainda anestesiada pelo refletor laranja; continuava chovendo forte. Ela abriu seu guarda-chuva.

Mais um instante e teria queimado minha retina, raciocinou quando começou a recuperar a consciência. Talvez esta seja a ideia. Uma experiência em que não somos donos do próprio corpo e mente. Uma anestesia mental que nos deixa confusos e desnorteados, sem pensamento próprio, uma verdadeira Laranja…

Um carro passou acelerando na rua e levantou uma grande onda de água suja que voou na jaqueta jeans e rosto de Carolina Moore.

Chamou um táxi pelo aplicativo em seu DST e tomou uma pílula orgânica que estava no frasco em sua sacola.

Que porra, ela pensou.

* * *

16:10. CAROLINA ENTROU EM UM táxi branco padrão. Era o único tipo de veículo que não se era permitido personalizar o exterior, por se tratar de um transporte universal.

— Residencial Ray Charles, por favor — Carolina orientou o motorista. Preciso de um banho, disse a si mesma.

O interior do carro era de extremo bom gosto; couro pintado por pigmento vermelho extraído de urucuns, um porta-luvas de metal reluzente pintado de branco e um motorista educado.

— Dia cheio, hein?

Carolina não entendeu.

— A sua blusa.

— Ah — ela olhou para a jaqueta suja. — É uma jaqueta jeans. Tomei um banho de algum motorista bêbado que passou a mil por hora ou coisa do tipo. — Disse ainda olhando para a jaqueta. — Pode colocar uma música?

— Você quem manda, moça — ele disse ajustando o rádio para a 188.fm. Estava tocando a 40ª de Mozart. — Bem melhor que as porcarias da 187, né? Imaginei que cê gostasse, a dizer que tava saindo do Laranja Orgânica.

Ela não respondeu, ainda distraída com a jaqueta. Ele notou:

— Tô vendo que tá tensa a coisa aí, né?

Ela percebeu sua forma de falar. Amigável, mas informal de um jeito quase forçado.

— Pois é — ela disse.

— Olha, eu geralmente não faço isso, mas talvez você seja a pessoa certa. — Ele retirou um cartão do bolso, prestando atenção à rua. — Toma isso.

Ele entregou o papel a ela. Havia um número de telefone e uma marca d’água escrita “P.A.U.”.

— Pau? — Ela riu, sem entender.

Esse cara trabalha como prostituto nas horas vagas?, pensou de forma irônica.

— Programa A-midiático Humanitário.

— “Humanitário” tem H. E o que é isto?

— Não soaria bem no acrônimo. Ligue e descubra.

Ela olhou o papel por mais alguns instantes.

* * *

16:32 DO HORÁRIO NACIONAL NORTE-AMERICANO (19:32 do Horário Internacional do Sudeste). O Sr. Robert “Bob” Huskey estava sendo à mesa de seu escritório na América do Norte, na cobertura do Edifício Neil Armstrong, folheando uma revista erótica Huskey enquanto esperava pela chegada do Presidente Winston Smith, da América Latina, para uma reunião.

Apenas a sala onde ficava tinha mais que o dobro do tamanho do apartamento inteiro de Jorge e Carolina, com o prédio em si tendo 50 andares e, a cada 10 andares, uma sala do mesmo escopo.

O escritório de Bob Huskey tinha capas emolduradas de suas revistas Huskey por todas as paredes, datadas desde 1938 da Terceira Geração. Muito antes de seu empreendimento erótico, no entanto, e mais anterior ainda à sua eleição como Presidente da América do Norte, Bob um dia fora apenas um inspirado mancebo tentando vender seus quadrinhos independentes. As luzes néon do teto alternavam entre cores primárias, secundárias e terciárias; normalmente entre as cores amarela, verde e vermelho-arroxeado. O piso branco e monótono era transformado em uma pista de boate.

Além dos quadros, cinco estátuas de mármore de modelos e atrizes nuas ficavam ao fundo da sala, posicionadas em frente a uma das quatro paredes pretas, separadas por 2 metros cada. As mais famosas, obviamente. Da esquerda para direita, eram: a modelo Elizabeth Miller, de longos cabelos cacheados e sorriso contagiante; a atriz Christine Sandler, de cabelo curtos e ondulados, olhar direcionado a um vazio, como se tivesse consciência de sua tragédia; a modelo Linda Spark, de aparência cansada e cabelos presos em rabo de cavalo por um pompom; Bella Houston, atriz exaustivamente sexualizada pela grande mídia, cabelos lisos até metade das costas; e, por último, Andreia Silveira, tropisudestina negra, estátua de olhar furioso e cabelos cacheados black power.

Bob tornara-se uma celebridade internacional há bastantes anos terrestres e buscava realocar seu escritório para Marte após a resolução dos conflitos recentes depois do falecimento de Leonard Strudel. Como todas as missões espaciais, esta seria realizada em segredo; a população acreditava que a exploração do Sistema Solar acabara ainda durante a Primeira Geração.

A música que tocava no rádio em cima da mesa era um sucesso dos anos 1960 da Primeira Geração. “Lucy in the Sky with Diamonds”. O telefone ao lado tocou.

— O Sr. Smith, chegou — disse a voz do secretário.

— Mande-o entrar — disse Bob Huskey.

Robert Huskey guardou a revista erótica na gaveta de sua mesa e ajeitou o cabelo com os dedos de cada mão de forma a parecer mais respeitável, como famosos heróis de filmes de espionagem. Ele baixou o som da música na rádio.

O Sr. Winston Smith entrou no escritório.

— Que beleza de sala você tem, meu amigo — disse o Sr. Smith.

Winston Smith usava um bigode que saltava do rosto, um chapéu azul escuro, terno cinza bordado nas mangas com desenhos de animais extintos das savanas africanas. Era alto, respeitável, mas não tinha os trejeitos de chefe que Robert Huskey julgava necessários para comandar uma nação.

— Já era hora, Winston. Sente-se. — Disse Bob.

O Sr. Smith se sentou na cadeira à mesa de Robert Huskey, frente a frente com ele. Eles apertaram as mãos, firmemente, as lâmpadas da sala alternando e iluminando seus rostos.

— Sinto pelo atraso, Bob. Tem multidões espalhadas por quilômetros até aqui. Todos querem respostas pelo que houve com o Sr. Strudel há alguns dias.

— E eles já tiveram. Uma bala perdida pegou o Strudel. Um acidente; o homem já está em custódia do governo Sul-Americano. Não há mais o que saber.

Smith meneou a cabeça, concordando.

— Só estou dizendo que as comoções podem não fazer bem a imagem dos outros países da NOA, principalmente ao senhor. — Robert Huskey fuzilou Winston com o olhar. — Rumores já estão se espalhando, dizendo que a morte de Strudel estaria beneficiando Bob Huskey. A oposição está irritada.

— Entendo — disse, levantando-se de sua cadeira. — Gim?

— Com gelo, por favor. Esta sala é quente. — Era verdade, mesmo que fosse o inverno, o Edifício Neil Armstrong atingia os 30 graus, porém todos os funcionários eram equipados com ternos térmicos que mantinham suas temperaturas em níveis agradáveis; mais barato que ar-condicionado, pelo menos para os residentes do continente Neoamericano.

Robert Huskey foi à adega do escritório.

— Continue. — Pegou uma garrafa e dois copos. Colocou gelo em um e Gim em ambos.

— Propus esta reunião…

— Espera, você propôs? Eu que lhe chamei — Robert Huskey rebateu. Sentou-se já bebendo rapidamente. O Sr. Smith bebericou um pouco.

— Mas o assunto foi de minha ideia.

— Sobre os acordos de compartilhamento de lucros da exportação das Revistas Huskey, eu sei. — Bob continuou bebendo.

Winston Smith concordou com a cabeça. O gelo de seu copo derretia rapidamente.

— A verdade é que preciso me retirar do acordo.

— Como assim?

— Olha, Bob, as mulheres são um ótimo negócio. O nosso acordo permite que a América do Sul tenha a renda necessária para os nossos novos projetos de infraestrutura… — disse o Sr. Smith.

— Mas.

— Mas estão começando a acreditar que tenho um complô com você a respeito da morte de Strudel. A solução mais prática é banir sua revista de meu país.

— Eu não matei Strudel.

Winston Smith disse que acreditava, entretanto sabia que um impeachment seria a melhor ideia da população. Como todos que faziam parte da Aliança Oceânica do Norte, a América do Sul tinha direito de votar nos presidentes dos outros países, assim como tirá-los do poder. Leonard Strudel vinha realizando as reformas necessárias para levantar o astral do povo Sul-Americano. Sua moeda, Trâmite, já havia chegado ao Trópico Sudestino e estava sendo uma revolução econômica como o Real foi para o Brasil no final do século XX da Primeira Geração. Para um país que outrora enfrentava crises oriundas da má gestão anterior, Leonard Strudel era um milagre.

— Isso terá de ser feito. Espero que não prejudique nossa amizade e negócios futuros, mas não há outra opção. — Disse o Sr. Smith. O gelo há havia derretido por completo. Bebeu o resto do Gim assim mesmo.

— Eu entendo, Winston — disse Bob. — Vou pensar em outra coisa. — Apertaram as mãos.

Winston Smith se levantou para sair e curvou-se para Bob. Quando estava próximo à porta, desequilibrou e caiu. Seu chapéu saiu da cabeça e caiu ao lado, as luzes ainda batendo em seu rosto.

— Você não pode fazer isso comigo, amigão — disse o Presidente Norte-Americano. — Vir aqui, dar uma notícia dessas e ainda prejudicar nosso acordo. Minha revista. Minhas mulheres. Minha imagem. — Ele caminhou até Winston e abaixou-se. — Com você fora do jogo, sem chance de a oposição vir até a mim. O gerenciamento da América do Norte é o melhor. Eles queriam você, pois você é mais fraco. Eles acreditam que se você saísse da presidência, me enfraqueceriam por conta de nossas relações amistosas.

O Sr. Smith se arrastava pelo chão.

— Eu não dou a mínima para o que eles pensam. Faço o que faço por todos os cidadãos da Aliança.

— O que você… — grunhiu o Presidente Latino-Americano.

— Gelo envenenado. Um truque bobo que aprendi em testes bobos que encontrei pela Rede Tangencial. Quem mandou demorar demais para beber?

Winston Smith morreu ali, exatamente às 17:00 do Horário Nacional Norte-Americano.

Leonardo Calado
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Written by Leonardo Calado

Tento escrever coisas engraçadas (as pessoas dizem que funciona).

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